15.10.10

Amor - Palavra Essencial

AMOR - pois que palavra essencial -
Começe esta canção e toda a envolva.
Amor, guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
Até desabrochar em puro grito
De orgasmo, num instante infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta a origem
Dos seres, que Platão viu completados:
É um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já nos cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
A essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
A fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
E devassando sóis tão fulgurantes
Que nunca a vista humana os suportara
Mas, varado de luz , o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
Que, além de nós, além da própria vida,
Como ativa a abstração que se faz carne,
A idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
Menos que isto, sons, arquejos, ais,
Um só espasmo em nós atinge o climax:
É quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
Esse amor mais suave de que o sono:
A pausa dos sentidos, satisfeita

Então a paz se instaura. A paz dos Deuses,
Estendidos na cama, qual estátuas
Vestidas de suor, agradecendo
O que a um Deus acrescente o amor humano.


                                                    Carlos Drummond de Andrade